![]() Vivencie os vôos históricos do Ford Tri-Motor |
Já estamos com duas horas de atraso e ainda não levantamos vôo. O terminal está apinhado de gente, as filas no balcão de check-in e na inspeção estão enormes, e os funcionários do portão de embarque há muito não estão mais sorridentes e perderam o senso de humor. Enquanto espero em outra fila para entrar, como um gado humano, em um moderno jato, com centenas de outros passageiros anônimos e exaustos, reflito que as viagens aéreas não são mais tão divertidas como antes.
Talvez a grama do quintal do vizinho seja sempre mais verde, mas observo as fotos que levo em minha pasta fotos de comissários sorridentes ajudando as senhoras a sair de um confortável vagão de trem e entrar na cabine luxuosamente decorada de um avião Ford Tri-Motor e sinto inveja. Naquela época, penso com melancolia, as viagens aéreas eram uma experiência e aventura fascinantes e agradáveis; os passageiros eram bajulados e os aviões ainda eram elegantes.
É claro que essa é uma visão muito romantizada. Os passageiros que embarcavam para a Costa Oeste na primeira rota aérea/ferroviária transcontinental eram bajulados porque, em 1929, uma passagem para a costa oeste custava praticamente o mesmo que um bilhete de ida e volta na classe econômica hoje. O Ford Tri-Motor em que eles viajavam era realmente elegante. Porém, não havia aquecimento na cabine, e o barulho e a vibração dos seus três motores eram uma agressão constante para os ouvidos e o corpo. Como os aviões voavam baixo, era comum haver turbulência, tornando alguns vôos extremamente desconfortáveis e derrubando, no colo dos passageiros, os consomés servidos fervendo pelos comissários de bordo. E, embora os Tri-Motors que percorriam essa rota fossem revolucionários para sua época, eles eram lentos e possuíam poucos instrumentos ou sistemas para ajudar a lidar com as condições meteorológicas. O serviço transcontinental oferecido em 1929 pela linha aérea Transcontinental Air Transport (TAT) - que inicialmente levava os passageiros em trem à noite e transportava-os no Tri-Motor durante o dia - fez enorme sucesso, chegando às manchetes dos jornais, pois reduziu o tempo de viagem entre Nova York e Los Angeles a meras 48 horas.
Ainda assim, havia algo de romântico e fascinante em voar naquele pesado avião de passageiros de três motores da Ford, construído em metal corrugado. Afinal, conforto é algo relativo. E, em 1927, o Tri-Motor representava um método inovador e extremamente avançado de viajar. Os poucos passageiros que viajaram nas linhas aéreas comerciais norte-americanas antes da construção desse avião tiveram de suportar o desconforto de uma cabine de piloto aberta ou espremer-se entre sacos de correspondências, em pequenos compartimentos fechados da fuselagem. Embora os Tri-Motors também fossem usados para o correio aéreo, eles foram um dos primeiros aviões fabricados pelos EUA especificamente para o transporte de passageiros. Os Fords possuíam uma cabine de passageiros grande e espaçosa, três motores potentes o suficiente para mantê-lo no ar mesmo em caso de falha de um ou dois motores e foram construídos totalmente em metal um conceito revolucionário nos anos 20.
O Tri-Motor foi projetado pela Stout Metal Airplane Company (que se tornou a Stout Metal Airplane Division da Ford Motor Company, quando Henry Ford comprou a empresa em 1925). A empresa foi batizada de "Stout" por causa de seu fundador e presidente, William Stout, mas o seu nome (que em inglês significa forte e resistente) também refletia a filosofia de projetos de aeronave desse executivo. Tanto Ford como Stout estavam preocupados com a segurança, e o Tri-Motor todo de metal foi projetado para mudar a visão que as pessoas tinham da aviação e das viagens aéreas. Ele foi, sob vários aspectos, o primeiro avião "responsável" popular, cujo objetivo não era oferecer facilidade de manobra, combater outros aviões ou fazer vôos panorâmicos, mas sim transportar passageiros com conforto, tranqüilidade e segurança. A Ford também financiou amplas campanhas publicitárias sobre a segurança, a conveniência e as vantagens das viagens aéreas, o que provavelmente contribuiu para o progresso da aviação comercial tanto quanto o desenvolvimento do Tri-Motor. Henry Ford também desempenhou um relevante papel no desenvolvimento de várias inovações para aumentar a segurança da aviação, incluindo o sistema de radionavegação que orientou os pilotos e os aviões de passageiros nos Estados Unidos, de 1929 até depois da Segunda Guerra Mundial.
Poucas pessoas considerariam o Tri-Motor um avião elegante ou charmoso. Por causa do seu trem de pouso largo e achatado e do seu jeito desengonçado de taxiar, ele foi apelidado de "Ganso de Lata" ("The Tin Goose"), e olhando-o de frente, o avião parece mais um robô mecânico gigante do que uma bela máquina voadora. Mas, ao entrar no velho hangar de madeira de teto circular em Oshkosh, Wisconsin, onde a Experimental Aircraft Association (EAA) mantém seu Ford 4ATE Tri-Motor de 1929 restaurado com primor, também me impressiono com a visão imponente dessa primeira Grande Dama dos céus. Sua fuselagem, com cerca de 15 metros de comprimento e em formato de caixa, desce em direção à cauda até uma altura extremamente próxima ao solo em sua parte traseira. Sua asa cantilever grossa e larga, com cerca de 23 metros de envergadura, destaca-se entre todos os outros aviões no hangar, fazendo com que eles pareçam miniaturas. Certa vez, estacionei meu Cessna 120 sob a asa de um Tri-Motor que encontrei na rampa de um aeroporto na Flórida, e o Cessna parecia um pequenino avião de brinquedo sob o enorme aerofólio de metal corrugado do Ford.
Usando um pequeno reboque, conduzimos o dócil gigante da EAA para a luz do sol de verão de Wisconsin. Embora seja possível empurrar o avião para fora do hangar com as mãos, essa não seria uma tarefa fácil, considerando seu peso bruto de mais de 4.500 quilos. George Daubner, o primeiro-piloto, entra no avião através de uma abertura no teto da cabine, a fim de verificar os níveis de combustível nos dois tanques das asas. Ele sobe com esforço até a seção central da asa e mergulha uma longa vareta calibrada de madeira em cada tanque, ficando a mais de três metros do solo. Satisfeito, ele desce e caminha ao redor do avião, chutando os grandes pneus, movendo o pequeno leme retangular para frente e para trás, e verificando os cabos de controle de aço que os pilotos insistiram que fossem estendidos fora da fuselagem para facilitar sua inspeção.
Minnesota Historical Society/CORBIS
Vôos de luxo: o interior de um Ford Tri-Motor. |
Uma vez concluída a verificação de pré-vôo, sigo George até a porta traseira de passageiros do Tri-Motor uma abertura oval tão próxima ao solo que até mesmo uma mulher de vestido e salto alto conseguiria entrar no avião sem perder a elegância e transporto-me imediatamente para uma época mais refinada 75 anos atrás, em que as pessoas de boa educação ainda se arrumavam para jantar. Painéis pintados à mão emolduram as longas janelas retangulares e elegantes luzes de leitura iluminam os 11 assentos antigos de vime, que parecem ter saído da varanda bem decorada de uma casa de verão vitoriana.
Dirijo-me à parte da frente do avião, abaixando-me ao passar sob a estrutura da longarina da asa em formato de caixa, que atravessa o centro da cabine de passageiros e fornece acesso às áreas de armazenamento da asa. Passo com cuidado através da pequena abertura da antepara que separa a cabine do piloto do compartimento de passageiros. O piso da cabine do piloto também ergue-se muito acima do nível da cabine dos passageiros, obrigando os pilotos a fazer uma verdadeira ginástica para sentar-se e levantar-se de seus assentos. Porém, mesmo a cabine apertada do Tri-Motor representava um enorme avanço em termos de conforto para os pilotos acostumados a pilotar aviões de cabines abertas. Na verdade, os pilotos que trabalharam para o cliente do primeiro Tri-Motor da Ford opuseram-se a uma cabine que os protegia dos elementos externos, alegando que ela poderia atrapalhar suas avaliações sobre as mudanças de tempo ou de atitude e direção do avião. Por causa disso, o primeiro Tri-Motor foi construído com uma cabine aberta. Contudo, após um único vôo de teste com o avião em um dia de novembro com ventos muitos fortes, os pilotos concordaram que a Ford cubrisse a área da cabine com uma capota de vidro.
Enquanto ajeito-me no assento do lado direito e abro a janela lateral da cabine, é difícil acreditar que os aviões de passageiros progrediram disso para os jatos 747 em menos de 40 anos. Há somente 13 instrumentos e medidores no painel à minha frente, e os medidores do motor localizados nesse painel aplicam-se somente ao motor central. Os medidores de rpm, de pressão e de temperatura do óleo dos dois motores externos estão localizados nas suas próprias nacelas. Para lê-los, são necessários dois pilotos e excelente visão. Ao contrário da luxuosa cabine de passageiros atrás de nós, nossa cabine é extremamente simples e funcional. Os manches de madeira foram inspirados nos Modelos T da Ford, e as paredes internas não têm nenhum revestimento ou isolamento. Meu joelho direito está apoiado diretamente no contraventamento transversal de metal rebitado no revestimento externo de alumínio corrugado.
George esquenta os três motores radiais. Contamos com um moderno motor de arranque elétrico, porém, muitos dos motores originais da Ford possuíam arranques inerciais que precisavam ser acionados manualmente por um mecânico no solo, como o Modelo T. Os motores pegam com um estrondo descontínuo e um jato de fumaça, até se estabilizarem em dois tons distintos um ruído mais baixo e vibrante e um ritmo "Rup-pa-pa-Rup-pa-pa-Rup-pa-pa", mais alto e descompassado, que se torna cada vez mais elevado e sincopado à medida que aceleramos.
"Assim que o motor pega, um cheiro inconfundível de óleo e fumaça penetra pela janela da cabine. É o cheiro dos aviões antigos uma deliciosa droga que, combinada com a estranha sensação de estar cercada pelo estampido entrecortado dos motores radiais, me enche de nostalgia. Se fechar os olhos e me deixar levar apenas por essas sensações, posso imaginar facilmente que estou no Grand Central Air Terminal, em Glendale, na Califórnia, em uma manhã ensolarada de 1929, aguardando para decolar rumo ao norte, para o Vale de San Joaquim, com a recém-criada Maddux Airlines.
Underwood & Underwood/CORBIS
As viagens aéreas eram uma aventura para os primeiros passageiros das linhas aéreas. |
No entanto, se voltasse realmente a 1929, creio que o som dos três motores do Ford rapidamente deixaria de ser tão agradável. Taxiamos até a pista de grama do Aeroporto Pioneer da EAA, e George segura os freios enquanto esquenta os motores antes da decolagem. Os pilotos do Tri-Motor original tinham de usar um sistema de freio "Johnson Bar" nada prático, que era acionado puxando-se uma alavanca para trás, para a esquerda ou para a direita na cabine. Embora não fosse muito difícil operar o sistema por si só, sua operação poderia se tornar extremamente complicada durante o pouso, quando o piloto precisava controlar, de uma só vez, os ailerons, a aceleração, o leme e o freio. Felizmente para nós, o Tri-Motor da EAA foi aperfeiçoado, contando com freios de pedal simples e modernos nos pedais do leme.
À medida que esquentamos os motores até sua plena potência, o barulho e a vibração tornam-se insuportáveis mesmo com os modernos fones de ouvido que usamos hoje. Os assentos trepidam, o avião sacoleja loucamente e o barulho dos motores ecoando através da fuselagem metálica é ensurdecedor. Soltamos os freios, e os motores, finalmente, nos impulsionam para a frente. Ganhamos velocidade ao passar pelos velhos hangares de madeira de teto circular ao longo da pista. O ruído dos motores finalmente se estabiliza em um ritmo constante que reverbera através da fuselagem, enquanto as pernas do trem de pouso se estendem e deixamos o solo. Para um avião desse porte, o Tri-Motor decola de forma supreendentemente rápida. Esse é um dos motivos pelos quais os Tri-Motors continuaram a ser usados para vôos de suprimentos e de passageiros em pistas remotas da América Central e do Sul, depois que as principais linhas aéreas passaram a utilizar os aviões Boeing e Douglas em meados dos anos 30.
Inclino o avião em direção ao sul uma manobra que consiste em fincar meu pé direito no chão, usando as duas mãos para virar o pesado manche para a direita, e aguardar uns três ou quatro segundos até que o avião obedeça. O Tri-Motor pode ser tudo, menos um avião de manobra fácil ou precisa. Isso torna-se ainda mais evidente em minha primeira tentativa de pouso, quando meu cálculo errado do intervalo entre um comando e a resposta do avião nos deixa voando em ziguezague, na altitude do teto do hangar, sobre a pista. É um rasante sensacional, mas não me acrescentaria nenhum ponto como piloto da Maddux Airlines.
Da coleção de Craig Morris (thepostcard.com/craig)
A Transcontinental Air Transport (TAT) vangloriava-se de que levaria seus passageiros de "Costa a costa em 48 horas". |
No entanto, quando subo para uma altitude de 500 pés, o Tri-Motor torna-se uma máquina muito mais fácil de se manobrar. Por outro lado, a dificuldade de manobra do avião é compensada por sua surpreendente estabilidade. Abro a janela do meu lado e apóio o cotovelo no umbral, sentindo a brisa quente do verão bater em meu braço. O mundo passa lentamente por nós uma paisagem em caleidoscópio, emoldurada pela enorme asa corrugada do Ford e a combinação do motor e da perna do trem de pouso presos sob ela. Voamos baixo o suficiente, o que nos permite ver os arvoredos ao redor de cada fazenda, as vacas pastando e os fazendeiros conduzindo seus tratores pelos campos verdes e amarelos.
E, enquanto observo o interior da América desvendar-se aos meus pés, penso que esse é o verdadeiro presente que o Tri-Motor oferecia aos seus passageiros e o motivo pelo qual as viagens aéreas pareciam muito mais fascinantes e agradáveis em sua época. Estranhamente, perdemos esse presente há tantos anos que nem lamentamos mais sua perda. Hoje, a velocidade e a conveniência são mais importantes do que tudo. Em um jato moderno, a viagem é apenas um espaço de tempo enfadonho entre dois destinos, e a terra é um ponto distante a umas seis ou sete milhas abaixo de nossas asas. Entretanto, na época do Tri-Motor, a viagem era muito mais emocionante. Enquanto os Tri-Motors da Maddux Airlines voavam majestosamente pelo interior da Califórnia, os pilotos e os passageiros viam realmente o mundo passar, em todos os seus detalhes, sua cor e glória. Voando de Nova York para Los Angeles na Linha Lindbergh da TAT, os passageiros podiam observar a paisagem lá embaixo, acompanhando a colonização do país a cada torre de igreja, rio e linha férrea. Não é de surpreender que os passageiros escrevessem cartões postais durante os vôos nos antigos Tri-Motors. Eles realmente tinham o que escrever.
As viagens aéreas avançaram muito desde que o Ford Tri-Motor tornou esse conceito possível e prático. Hoje, os passageiros transcontinentais não precisam usar chumaços de algodão nos ouvidos nem suportar 36 horas em uma cabine sem aquecimento, cujo piso vibra no ritmo de três motores barulhentos. Podemos partir de Nova York às 16h e jantar em Los Angeles às 19h, no mesmo dia. Os pilotos das linhas aéreas atuais voam bem acima das nuvens e ainda contam com motores a turbina e sistemas de navegação por instrumentos confiáveis, controles de vôo computadorizados, pilotos automáticos e refeições quentes, servidas em cabines climatizadas. Temos sistemas de segurança bem mais avançados, serviço de fax e email em pleno vôo, centros de entretenimento pessoais até mesmo nos assentos da classe econômica um nível de conforto com o qual os passageiros do Tri-Motor nem sonhavam.
Mas os antigos Tri-Motors tinham uma certa magia que nenhum avião de passageiros moderno é capaz de oferecer ou reproduzir. Porque os Tri-Motors faziam bem mais do que simplesmente transportar os passageiros de um lugar para outro. Eles lhes ofereciam um vôo panorâmico em um tapete mágico, voando alto o suficiente para lhes dar uma boa perspectiva, mas ainda baixo o bastante para que eles pudessem realmente apreciar cada paisagem. Os Fords talvez fossem lentos e um tanto desconfortáveis, mas permitiam que os viajantes comuns vissem o mundo de uma perspectiva que somente os pilotos e alguns corajosos e sortudos passageiros de vôos panorâmicos já haviam visto.
Em um mundo em que as viagens aéreas são tão comuns que as pessoas voam até Paris para passar um simples fim de semana, é difícil imaginar como seria a vida sem elas. Mas, em 1927, o céu era um mundo desconhecido, explorado apenas por alguns bravos pioneiros. O Ford Tri-Motor mudou isso. E, talvez por esse motivo, alguns solavancos, uma cabine gelada e um pouco de barulho e vibração não representassem um grande sacrifício para seus passageiros.
